segunda-feira, 23 de março de 2026

Hulle Horranna, Diz: No teatro, nem sempre a gente senta na plateia, por vezes a gente embarca, e é exatamente essa a travessia proposta por “Carranca, da proa do barco ao palco”, do Grupo de Teatro Mistura.

Cine Teatro Casa Anísio Teixeira - 2025 - Caetité 

Com 10 anos em circulação a obra interpretada por Gilberto Morais não é apenas uma encenação, é uma obra de arte que como a própria carranca que representa, foi aos poucos sendo esculpida e ganhando forma enquanto bebia das águas e das oralidades ribeirinhas por onde passou. Não à toa, recentemente recebeu o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do IPHAN, que para além de algo pra se colocar em uma estante, é um reconhecimento irretocável de que nosso patrimônio não é estático, e de que para além da imagem, ele tem significado.

A montagem brinca com a quebra da quarta parede, mas faz algo ainda mais profundo, derruba as nossas paredes internas, nossos conceitos frágeis e nossas visões simplistas sobre o tema abordado, mas ele faz isso com afeto, como um amigo que te convida a sentar no banco a beira do rio, com uma dose de cachaça e um convite para dialogar, porque embora o ator se apresente sozinho como em um monólogo, o que ele propõe em cena é um diálogo, o publico faz parte da peça tanto quanto o ator e suas carrancas. O cenário é de uma simplicidade cortante, emoldurado por duas carrancas que nos observam e vigiam o tempo todo, no centro, o mínimo necessário: uma mesinha e um banco que sustentam tudo o que é necessário e apenas isso, e é com pouco que o universo imenso do São Francisco vaza para dentro do teatro e de nós, já nos provocando de cara sobre o que é essencial.

Quando Gilberto assume a figura do velho ribeirinho, o corpo muda o eixo, a máscara serve não como maquiagem para cobrir, mas como expressão para revelar, somos fisgados por uma teatralidade física memorável, a bengala sustenta mais que um corpo, ali ela sustenta também uma história, a voz modula as palavras com rimas potentes que, feito correnteza, parecem mansas, mas sempre encontram um jeito de cutucar algo profundo.

A cachaça partilhada e o flerte com a venda das carrancas não são meros truques de interação que servem apenas à encenação; são rituais de comunhão, reflexos profundos de um estilo de vida e de uma cultura. Há uma semiótica sensível e bem dosada nessa dose oferecida, não é uma bebida para embriagar, mas para molhar a palavra, para degustar o momento, a fim de que a memória dessa tradição oral não seque na garganta, sem esquecer que essa água é também ardente e carrega a simbologia também dessa dualidade, desce rasgando o peito, como o próprio texto da peça, com suas palavras cortantes, sobre a exploração, o desmatamento e a secura dos rios, depois aquece o peito como o afeto e a teimosia desse povo nordestino, quando você aceita, você aceita também uma dose da vida ribeirinha.

Esse gole partilhado funciona quase como uma oferenda, então somos convidados a olhar para essas vivências com os olhos de dentro, as carrancas oferecidas e anunciadas são uma recusa a morte dessa tradição, não apenas simbolicamente, o ator leva consigo carrancas de artesãos para serem vendidas, ou repassa o contato dos artesãos para encomendas, fomentando a economia de forma ativa.

Ao vivo, Vania Nogueira e Cléber Eduão fazem a trilha sonora que dita o compasso das águas, é ritualística e visceral, o ator nos provoca a formar um coro que evoca o que virá logo a seguir: “carranca, carranca!”.

Próximo do fim, o ator maquia seu rosto com as próprias mãos, mas não maqueia as durezas da exploração e do esquecimento, ele não apenas narra o mito, ele precisa se agigantar para evocar a própria entidade, agora ele é carranca, e lá do alto ele diz “não” a tudo aquilo que seca e consome o rio, o ribeirinho, o nordestino, ele diz não ao esquecimento, a carranca renasce e reafirma sua reXistência.

Com olhos arregalados e dentes a mostra o espetáculo atinge o seu ponto alto, e nos faz sentir essa expressão em nossos próprios corpos. Sem mais detalhes, apenas vivendo a experiência é possível compreender a dimensão que o espetáculo ocupa.

Link do Texto https://cepac.art/teatro/peca-de-teatro-carranca-da-proa-do-barco-ao-palco-ganha-premio-do-iphan/

Parabéns ao Grupo de Teatro Mistura em nome de Gilberto Morais, você é gigante.

HULLE HORRANNA

Nascida em Jacobina, também conhecida como cidade do ouro, na Chapada Diamantina, Bahia, desde pequena observava o mundo com lentes incomuns e criativas, de modo que a fez perceber o brilho, não no ouro, não nos diamantes, mas na arte que lhe inspirou em diversos segmentos no decorrer do seu aprendizado, contribuindo paraa construção de uma personalidade sensível e extremamente crítica.Residindo em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, desde 2010, participou da antologia Fragmentos com 10 poemas de sua autoria. Atriz, escritora e ilustradora por ocasião, atualmente escreve para a CEPAC, Companhia de Experimentação e Pesquisa em Arte & Cultura – companhia responsável pela montagem das peças que compõem esta coletânea – e pretende lançar um livro de poemas em breve, mas, enquanto isso, dispara suas letras junto a um amontoado de sentimentos em sua página no Facebook, chamada Zona de Conforto.

 

 



Danilo Lima Diz "Mover Mistérios dos Rios às Terras" sobre espetáculo de teatro "CARRANCA – Da Proa do Barco ao Palco"

Foto: Pâmela Paranhos - Cine Teatro da Casa Anísio Teixeira - Caetité - 2025

Crítica escrita 2024 por Danilo Lima, para o espetáculo CARRANCA – Da proa do barco para o palco.

A obra é dialógica desde seu iníciar, ao convocar os públicos para repetir os versos ditos pelo personagem, e nesse falar, já escutamos um dos frutos bastante presente na culinária geraizeira, que é o pequi. Como também, um dos principais motes de sua dramaturgia, que é referenciar carranqueiros, como Mestre Guarany, pioneiro nesta arte de talhar. O local, ou seja, a singularidade de onde o ator vem e suas referências,  está como a experiência a ser encenada. O espetáculo... vai começar!


A obra nos questiona sobre onde estar o mistério do rio são Francisco, e com o espetáculo, em sua atmosfera cênica entre acordes de violão e uma iluminação de ribalta, criando sombras, estas que povoam o palco, nos faz imergir na história a ser representada. A poética da obra assume em sua composição visual, totens de carrancas no e pelo palco, onde a linguagem das artes plásticas é uma das características de sua composição cênica.


Escutamos sobre reminiscências deste vendedor, relatos e relatos de suas memórias de infância, e já que o corpo é uma “pirraça”, é nos dito que esta criança por reconhecer sua condição social de vulnerabilidade econômica, vendia escondido de seu pai, carrancas que o mesmo produzia. Aqui reconhecemos a sabedoria que é passada de geração a geração.


Refletimos como o espetáculo CARRANCA, criado em 2017, e que tem realizado sua navegação por terreiros, palcos e praças na Bahia, colabora com o aprofundamento local sobre a importância do ser carranca e esta artesania, e como essa história foi construída e por quem tem sido contada, tendo como ponto de partida conhecer esse território que a obra foi concebida. Território do Velho Chico, o que te lembra?


O termo Velho Chico é suficiente para compreender os conflitos desse território, ou é a porta de entrada para reconhecer as conquistas, resistências e criatividade de toda uma comunidade tradicional que compõem sua população.


A corporeidade do ator, Gilberto Morais, que nos apresenta uma transição de vendedor, nomeado Zé das Carrancas, para ser uma representação de carranca, com expressividade facial e sonoridades vocais que simbolizam o som de uma carranca, pode também corporalizar qualidades de movimentos inspirados no mover do rio, sinuoses que potencializarão sua expressão corporal em cena, e assim, a máscara facial do ator, com a maquiagem de carranca, não estará unicamente responsável pela comunicação da figura representada.


A simbologia das carrancas possui no imaginário popular a proteção das barcas contra naufrágios e assombrações marítimas, com sua expressão de assombro, espantaria maus espíritos desse inconsciente dos ribeirinhos. Mas também, ela nos reforça a necessidade de se encorajar, para enfrentar as adversidades que se movem seja na terra ou nas águas doce de nossa Bacia. E somos convocados a refletir sobre as lutas sociais e ambientais que emergem nos interiores do cerrado, seja pelos massacres que povos indígenas sofreram em nosso território, seja pelos agrotóxicos jogados em nossas águas, pela escravização da comunidade negra que aqui se estabeleceram; é um espetáculo teatral que nos convoca a ter conhecimento sobre uma outra história deste território, a partir da vivência de um ribeirinho artista, nos alertando que a história única de que o progresso que subiu os rios pelos vapores e as desmatações ocorridas aqui, fazem parte de um perigo no equilíbrio do mistério entre natureza e vidas humanas, e que só interessa um grupo específico de produtores que observam esses recursos naturais como recurso financeiro.


O desenvolvimento da obra, em sua encenação, muito sensivelmente musicalizada, inspira seus públicos a irem como o curso de um rio (você é um rio), ao encontro das lutas sociais, movendo aos encontros de outras águas, matas e como enchentes, conterem as ações que impedem o curso livre de seus rios (o seu curso livre).

VÁ, VÁ SER CARRANCA, VÁ!

DANILO LIMA

É ator, curador e crítico teatral. Nasceu e vive em Barreiras (BA/1992), Agente Territorial de Cultura pelo MinC (Ministério da Cultura) e professor da Escola Municipal de Teatro da Prefeitura de Barreiras – BA. É Especialista em Estudos Contemporâneos em Dança e Bacharel em Artes Cênicas pela Escola de Teatro, ambas formações pela UFBA. Editor e crítico teatral no site Do Hiato Litígio. Possui formação em Mediação Cultural Contemporânea (Escola Itaú Cultural SP) e de Jornalismo Cultural e Crítica de Artes no Brasil (Centro de Pesquisa e Formação do SESC SP). Foi gestor, curador e produtor cultural do projeto Abril O corpo e o que ele pode manifestar? (Teatro Gamboa Nova/2018). É curador no FESTAC – Festival Estudantil de Artes Cênicas (BA). Foi indicado ao prêmio Braskem de Teatro (2017) na Categoria Especial pela preparação corporal do espetáculo “Maçã – Um acontecimento cênico”. Investiga procedimentos corporais para a cena multimídia e aproxima esses procedimentos às práticas da mediação, crítica e historiografia teatral, como forma de gerar suas próprias metodologias artísticas para a atuação, ensino e direção cênica.

sábado, 7 de março de 2026

GRUPO DE TEATRO MISTURA CONQUISTA RECONHECIMENTO NACIONAL COM PRÊMIO DO IPHAN

O trabalho desenvolvido às margens do Rio São Francisco levou o Grupo de Teatro Mistura, da cidade de Ibotirama, no oeste da Bahia, a conquistar projeção nacional. A companhia foi uma das vencedoras da 38ª edição do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, concedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), uma das mais importantes premiações voltadas à preservação do patrimônio cultural brasileiro.

A cerimônia de entrega do prêmio foi realizada na noite de terça-feira (3), em Brasília, reunindo iniciativas de todo o país que se destacam pela originalidade, relevância e caráter exemplar na salvaguarda da cultura brasileira. Nesta edição, o prêmio registrou número recorde de inscrições: 876 projetos de todos os estados brasileiros concorreram ao reconhecimento. Ao todo, 18 iniciativas foram premiadas, com projetos de 12 estados contemplados. A Bahia foi o estado com maior número de premiações, com três iniciativas reconhecidas. Acesse aqui e Assista https://www.youtube.com/watch?v=znD7Drdax4M&t=1972s

Colônia de Pescadores de Ibotirama - Entrega de peças de artesanato em madeira "Carrancas" para Donos de Embarcações

O Grupo de Teatro Mistura foi premiado pelo projeto “Repovoando as Carrancas nas Margens do São Francisco”, realizado entre 2022 e 2025, contemplado nos Editais da Paulo Gustavo Bahia e tem Apoio Financeiro do Governo do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura via Lei Paulo Gustavo, direcionada pelo Ministério da Cultura, Governo Federal. Paulo Gustavo Bahia (PGBA). . A iniciativa percorreu comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas levando arte, memória e patrimônio cultural por meio de apresentações do espetáculo “Carranca – da proa do barco para o palco”, além de palestras, exposições de carrancas e a doação de esculturas em madeira para proprietários de embarcações tradicionais do Velho Chico. Acesse site do projeto aqui!

Apresentação espetáculo "Carranca - Da Proa do Barco para o Palco", dia 04/03 Beijódromo Brasília 
programação do 1º Fórum Sistema Nacional de Patrimônio Cultural  

A premiação também marca um momento simbólico para o grupo. Em 2026, o espetáculo “Carranca – da proa do barco para o palco” completa dez anos de circulação, consolidando-se como uma das obras mais representativas do teatro produzido no interior da Bahia e reforçando o diálogo entre arte, tradição e território.

Para o diretor do grupo e idealizador do projeto, Gilberto Morais, o reconhecimento nacional confirma a força de um teatro que nasce do encontro com a cultura popular e com as histórias do próprio lugar.

“Receber um prêmio dessa dimensão é uma emoção profunda para todos nós. O nosso teatro nasce às margens do São Francisco, escutando as histórias do povo ribeirinho, olhando para a cultura, para a raiz e para o patrimônio como caminhos de criação. Ver esse trabalho alcançar novos espaços e ganhar reconhecimento nacional é a prova de que a arte feita no interior também tem potência para dialogar com o Brasil inteiro”, afirmou.

Ainda segundo o diretor, o prêmio chega como um marco simbólico na trajetória do grupo. “É muito significativo que esse reconhecimento aconteça justamente no momento em que o espetáculo Carranca completa dez anos de circulação. É uma celebração do caminho percorrido e, ao mesmo tempo, um incentivo para continuar repovoando de memória, arte e identidade as margens do nosso rio.”

Reconhecido pela criação de projetos culturais de forte impacto social e patrimonial, o Grupo de Teatro Mistura vem se consolidando como uma das referências na construção de ações que articulam arte, território e memória no interior da Bahia, levando o teatro para comunidades, rios, praças e novos palcos pelo país.

 TEXTO: Jornalista Ananias Serranegra