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| Foto: Pâmela Paranhos - Cine Teatro da Casa Anísio Teixeira - Caetité - 2025 |
Crítica escrita 2024 por Danilo Lima, para o espetáculo CARRANCA – Da proa do barco para o palco.
A obra é dialógica desde seu iníciar, ao convocar os
públicos para repetir os versos ditos pelo personagem, e nesse falar, já
escutamos um dos frutos bastante presente na culinária geraizeira, que é o
pequi. Como também, um dos principais motes de sua dramaturgia, que é
referenciar carranqueiros, como Mestre Guarany, pioneiro nesta arte de talhar.
O local, ou seja, a singularidade de onde o ator vem e suas referências, está como a experiência a ser encenada. O
espetáculo... vai começar!
A obra nos questiona sobre onde estar o mistério do rio são Francisco, e com o espetáculo, em sua atmosfera cênica entre acordes de violão e uma iluminação de ribalta, criando sombras, estas que povoam o palco, nos faz imergir na história a ser representada. A poética da obra assume em sua composição visual, totens de carrancas no e pelo palco, onde a linguagem das artes plásticas é uma das características de sua composição cênica.
Escutamos sobre reminiscências deste vendedor,
relatos e relatos de suas memórias de infância, e já que o corpo é uma
“pirraça”, é nos dito que esta criança por reconhecer sua condição social de
vulnerabilidade econômica, vendia escondido de seu pai, carrancas que o mesmo
produzia. Aqui reconhecemos a sabedoria que é passada de geração a geração.
Refletimos como o espetáculo CARRANCA, criado em 2017, e que tem realizado sua navegação por terreiros, palcos e praças na Bahia, colabora com o aprofundamento local sobre a importância do ser carranca e esta artesania, e como essa história foi construída e por quem tem sido contada, tendo como ponto de partida conhecer esse território que a obra foi concebida. Território do Velho Chico, o que te lembra?
O termo Velho Chico é suficiente para compreender os
conflitos desse território, ou é a porta de entrada para reconhecer as
conquistas, resistências e criatividade de toda uma comunidade tradicional que
compõem sua população.
A corporeidade do ator, Gilberto Morais, que nos
apresenta uma transição de vendedor, nomeado Zé das Carrancas, para ser uma
representação de carranca, com expressividade facial e sonoridades vocais que
simbolizam o som de uma carranca, pode também corporalizar qualidades de
movimentos inspirados no mover do rio, sinuoses que potencializarão sua
expressão corporal em cena, e assim, a máscara facial do ator, com a maquiagem
de carranca, não estará unicamente responsável pela comunicação da figura
representada.
A simbologia das carrancas possui no imaginário
popular a proteção das barcas contra naufrágios e assombrações marítimas, com
sua expressão de assombro, espantaria maus espíritos desse inconsciente dos
ribeirinhos. Mas também, ela nos reforça a necessidade de se encorajar, para
enfrentar as adversidades que se movem seja na terra ou nas águas doce de nossa
Bacia. E somos convocados a refletir sobre as lutas sociais e ambientais que
emergem nos interiores do cerrado, seja pelos massacres que povos indígenas sofreram
em nosso território, seja pelos agrotóxicos jogados em nossas águas, pela
escravização da comunidade negra que aqui se estabeleceram; é um espetáculo
teatral que nos convoca a ter conhecimento sobre uma outra história deste
território, a partir da vivência de um ribeirinho artista, nos alertando que a
história única de que o progresso que subiu os rios pelos vapores e as
desmatações ocorridas aqui, fazem parte de um perigo no equilíbrio do mistério
entre natureza e vidas humanas, e que só interessa um grupo específico de
produtores que observam esses recursos naturais como recurso financeiro.
O desenvolvimento da obra, em sua encenação, muito
sensivelmente musicalizada, inspira seus públicos a irem como o curso de um rio
(você é um rio), ao encontro das lutas sociais, movendo aos encontros de outras
águas, matas e como enchentes, conterem as ações que impedem o curso livre de
seus rios (o seu curso livre).
VÁ, VÁ SER CARRANCA, VÁ!
É ator, curador e crítico teatral. Nasceu e vive em Barreiras (BA/1992), Agente Territorial de Cultura pelo MinC (Ministério da Cultura) e professor da Escola Municipal de Teatro da Prefeitura de Barreiras – BA. É Especialista em Estudos Contemporâneos em Dança e Bacharel em Artes Cênicas pela Escola de Teatro, ambas formações pela UFBA. Editor e crítico teatral no site Do Hiato Litígio. Possui formação em Mediação Cultural Contemporânea (Escola Itaú Cultural SP) e de Jornalismo Cultural e Crítica de Artes no Brasil (Centro de Pesquisa e Formação do SESC SP). Foi gestor, curador e produtor cultural do projeto Abril O corpo e o que ele pode manifestar? (Teatro Gamboa Nova/2018). É curador no FESTAC – Festival Estudantil de Artes Cênicas (BA). Foi indicado ao prêmio Braskem de Teatro (2017) na Categoria Especial pela preparação corporal do espetáculo “Maçã – Um acontecimento cênico”. Investiga procedimentos corporais para a cena multimídia e aproxima esses procedimentos às práticas da mediação, crítica e historiografia teatral, como forma de gerar suas próprias metodologias artísticas para a atuação, ensino e direção cênica.


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